|
Quanto vale uma grife brasileira
Como deve ser a avaliação de confecções de grife? Quais as atividades autônomas que ela integra?
Carlos Alberto Dória
A organização industrial das tecelagens e confecções está ligada às origens do capitalismo, na Inglaterra. Através delas foi possível padronizar e serializar a produção, ajudando a criar o mercado dos produtos de massa.
É extraordinário que hoje as confecções atinjam o setor “de ponta” do capitalismo, mostrando com clareza os seus principais dilemas: a articulação instável dos elos da sua cadeia produtiva; a volatilidade dos seus produtos, “durando” uma breve estação; a complexidade do vínculo entre atividades tradicionais (confecção de roupas) com a ultra-modernidade do design; a pesquisa e desenvolvimento de tecidos “tecnológicos”; o comércio, imerso em ambientes de grande concentração de capital (os shoppings), etc.
Mas o que de fato conta no movimento de capital é sempre o conjunto de circunstâncias que constitui o seu ambiente, o que, no caso das confecções de grife no Brasil, diz respeito ao mercado de luxo e sua expansão, graças ao desempenho geral da economia.
O sinal mais visível da posição estratégica das confecções de grife na construção da modernidade brasileira é dado pelo glamour sem igual que reveste toda sua cadeia produtiva, o noticiário de imprensa que gira em torno dela e o papel dos desfiles e modelos no imaginário moderno. Mas, por trás do glamour, são quase todas pequenas e médias empresas, surgidas entre os anos 1970 e 1980, com feição nítida de empresas familiares cuja marca distintiva é a fusão, na mesma pessoa, do estilista e do administrador.
Fruto típico do empreendedorismo, essas empresas se modernizaram recentemente mas com certo anacronismo no momento em que, no mundo todo, o fordismo acabou e a produção competitiva de vestimenta é feita em redes que abarcam vários países, como a China, a Coréia, a Índia, partindo-se de matérias-primas de alta tecnologia, originadas no Japão ou na Europa. Em poucas situações se viu a separação exitosa entre o estilismo e o confeccionismo; entre a direção de estilo e a direção industrial, até mesmo porque a acumulação virtuosa da marca em geral se dá em torno da pessoa que se ocupa do estilo, e não da atividade industrial.
Este intangível, que é a marca e que, hoje, encerra o maior valor das empresas da “nova economia”, precisa ter por trás de si uma gestão condizente com o momento da industria de modo a ser sustentável. Processos mais racionais, economia de escala, trabalho em rede, complementaridade entre os elos da produção e, no caso do Brasil, o máximo de distância possível do mercado informal ( o que – é bom que se diga – aumenta custos e preços finais de produtos). Esses são requisitos da construção das grifes como valores negociáveis no mercado.
Esse universo empresarial olha para o fenômeno Luis Vuitton e procura vê-lo como o seu espelho. O conglomerado se formou a partir dos anos 1990 e a única coisa que as suas empresas têm em comum é estarem inteiramente voltadas para o mercado do luxo. Destilados, vinhos, couros, perfumes, cosméticos, relógios, jóias, varejo, dutty-free, além da revista Connaissance des Arts, compõem o portfólio do grupo. Todos produtos que possuem a propriedade mágica de incluir os seus consumidores, ao menos simbolicamente, na comunidade de sentido que se cria em torno das altas rendas.
No Brasil, acredita-se que o mercado de luxo possa ser alavancado pelas confecções de grife. Pelo caráter incipiente desse mercado e pouca diversidade de seus componentes, as confecções estão na sua vanguarda. Tanto é que, ano passado, começou o processo de aquisição das empresas desse segmento por fundos de capital visando a sua “reformatação” e conseqüente valorização. Os movimentos do I’M (grupo financeiro HLDC), do InBrands ou do Tarpon All Equities sinalizaram esta direção dos negócios, mirando futuros IPO.
Não se pode dizer que tenha se iniciado uma “corrida” pela aquisição das grifes, como aparentemente se acreditou no começo desse movimento, mas a questão da avaliação e da estratégia de valorização das confecções de grife foi definitivamente posta na ordem do dia. Meios de comunicação, universidades, mercado imobiliário, indústrias de alimentação, indústria farmacêutica, editoras, gráficas, nada escapa a este movimento ao qual agora se somam as confecções de grife. A questão é que precisam construir um “novo valor” para integrar a “nova economia”.
A particularidade e complexidade das confecções é que deve definir a estratégia de avaliação daquilo que realmente são: uma integração vertical de um bureau de estilo (design), de uma unidade fabril industrial e de uma rede própria ou franqueada de comercialização. São três funções distintas, que poderiam ser pensadas como capitais independentes, e que, no entanto, se fundem sob o comando da figura do “estilista-administrador”. Já o modelo de aquisições múltiplas visando um IPO exige, também, o caminhar para a “governança corporativa”, para a transparência, o respeito ao meio ambiente, etc, de forma que todo passo nessa direção acrescentará valor às confecções tendo em vista integrarem a “nova economia”.
Por essa razão temos procurado desenvolver metodologia adequada para situar as confecções de grife no novo contexto, maximizando os valores do seu capital intangível. Certamente a valuation que toma apenas os ativos relacionados com a fabricação ou com a comercialização não levam em conta aquilo que é o seu maior valor: o estilismo de cada uma, ou o seu bureau de estilo como unidade independente.
Para ver em formato PDF clique aqui
|